“Como nas suas pegadas caminhasse grande massa de povo, Jesus, voltando-se, disse-lhes: Se alguém vem à mim e não odeia a seu pai e a sua mãe, a sua mulher e a seus filhos, a seus irmãos e irmãs, mesmo a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. E quem quer que não carregue a sua cruz e me siga, não pode ser meu discípulo. Assim, aquele dentre vós que não renunciar a tudo o que tem não pode ser meu discípulo.” (Lucas, 14:25 a 27 e 33)
Este é um dos textos bíblicos que mais causam estranheza à primeira vista. Como pode Jesus, o Mestre do Amor, nos pedir para “odiar” nossa própria família?
Para o Espiritismo, a letra mata, mas o espírito vivifica. Vamos mergulhar na interpretação lógica e consoladora desta passagem, conforme orienta O Evangelho Segundo o Espiritismo.
O Desafio de Seguir o Cristo: O que significa “Odiar” a família?
À luz da Doutrina Espírita, precisamos compreender que Jesus utilizava a linguagem de sua época e região. No contexto hebreu, o termo traduzido como “odiar” era frequentemente usado com o sentido de “amar menos” ou “colocar em segundo plano”.
1. A Prioridade do Espírito
Jesus não está pregando o desamor ou a ingratidão. Pelo contrário, Ele nos ensinou que o maior mandamento é o amor. O que Ele propõe aqui é uma hierarquia de valores. Seguir o Cristo significa priorizar as leis de Deus e o progresso espiritual acima das afeições puramente materiais ou dos interesses egoístas da família terrena.
2. Parentesco Corporal vs. Parentesco Espiritual
O Espiritismo nos ensina que existem dois tipos de família:
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Os laços do corpo: Resultantes da hereditariedade e necessários para a reencarnação.
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Os laços do espírito: Fundados na afinidade e na simpatia real, que persistem além da morte.
Quando Jesus diz para “odiar” pai e mãe, Ele alerta que, se os interesses da nossa família biológica nos impedirem de cumprir nossa missão moral ou nos convidarem ao erro, devemos escolher o caminho do bem, mesmo que isso signifique contrariar os nossos entes queridos.
“Carregar a sua Cruz”: A Aceitação das Provas
A “cruz” mencionada por Jesus representa as nossas provas e expiações. Cada dificuldade, doença ou desafio familiar é a ferramenta necessária para o nosso burilamento.
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Resignação Ativa: Não é apenas sofrer por sofrer, mas aceitar as dificuldades sem revolta, compreendendo que elas são causas anteriores (desta ou de outras vidas) buscando o equilíbrio.
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O Exemplo do Mestre: Jesus não apenas falou; Ele carregou Sua própria cruz, mostrando que o caminho para a luz invariavelmente passa pelo esforço próprio e pela superação das limitações humanas.
A Renúncia a Tudo o que tem
“Renunciar a tudo o que tem” não significa necessariamente viver na miséria material, mas sim praticar o desapego.
No Espiritismo, entendemos que não somos “donos” de nada; somos apenas administradores temporários do que Deus nos empresta (bens, inteligência, títulos). Renunciar é:
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Não ser escravo das posses.
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Estar pronto para perder o que é material em favor do que é espiritual.
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Colocar o “ser” acima do “ter”.
Conclusão: O Verdadeiro Discípulo
Ser discípulo de Jesus, sob a ótica espírita, é um convite à reforma íntima. Jesus nos convida a amar a todos, mas a não permitir que nenhum afeto terreno nos desvie do dever moral.
Amar “menos” a família em relação a Deus significa, na verdade, amá-los com um amor mais puro, livre do egoísmo e da posse, desejando antes de tudo o progresso espiritual de cada um.
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