Entenda a lógica por trás da resposta de Donald Trump e as implicações dessa comparação histórica entre Venezuela e Iraque.
A Lógica de Trump sobre a Venezuela: Por que o “Fantasma do Iraque” Molda sua Visão de Regime Change?
Recentemente, ao ser questionado sobre sua postura em relação à Venezuela — especificamente sobre por que manter canais abertos com figuras do regime de Maduro, como Delcy Rodríguez, em vez de um alinhamento total e exclusivo com a líder opositora María Corina Machado — o ex-presidente Donald Trump ofereceu uma resposta que pegou muitos de surpresa, mas que carrega uma lição profunda de geopolítica e pragmatismo.
A Resposta de Trump: “Se vocês se lembrarem de um lugar chamado Iraque, onde todos foram demitidos — absolutamente todos, a polícia, os generais, todos foram demitidos — e acabaram se tornando o ISIS.”
Para entender o que isso significa para o futuro da Venezuela, precisamos analisar o erro histórico cometido no Oriente Médio e por que Trump o utiliza como um “freio” para a crise venezuelana.
1. O Erro da “Desbaathificação” no Iraque (2003)
Para entender a analogia de Trump, é preciso voltar a 2003. Após a queda de Saddam Hussein, os EUA implementaram a política de “Desbaathificação”.
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O que foi: A dissolução completa do exército iraquiano e a demissão de qualquer funcionário público ligado ao partido de Saddam.
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A consequência: Centenas de milhares de homens treinados, armados e com profundo conhecimento do território foram jogados na rua, sem salário e sem propósito.
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O resultado: Esse vácuo de poder e o ressentimento desses militares criaram o terreno fértil para a insurgência sunita que, anos depois, formaria o núcleo do Estado Islâmico (ISIS).
Trump argumenta que destruir completamente o “esqueleto” de um Estado, por mais autoritário que seja, sem um plano de transição que inclua parte da estrutura atual, é a receita para o caos absoluto.
2. Venezuela: O Medo de um Estado Falido no Caribe
Ao mencionar Delcy Rodríguez (vice-presidente e peça-chave do chavismo), Trump sinaliza que aprendeu com o erro de Bush. Na visão dele, uma mudança na Venezuela que “demita absolutamente todos” — generais, chefes de polícia e burocratas — poderia transformar o país em um “Iraque das Américas”.
Por que não apenas Machado?
Embora María Corina Machado represente a legitimidade democrática e o desejo de mudança da população, a realidade geopolítica “de chão de fábrica” impõe dilemas:
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A Estrutura de Poder: O regime de Maduro não é apenas um governo, é um sistema onde militares controlam a economia, as fronteiras e a segurança interna.
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O Risco de Guerra Civil: Se o chavismo for totalmente extirpado sem negociação, grupos armados (colectivos) e militares desertores poderiam formar milícias semelhantes às que surgiram no Iraque, desestabilizando a região por décadas.
3. Realismo Político vs. Idealismo Democrático
A análise de Trump reflete uma transição do Idealismo Neoconservador (que busca exportar a democracia a qualquer custo) para o Realismo Geopolítico.
| Abordagem Tradicional (Iraque 2003) | Abordagem Proposta (Realismo de Trump) |
| Destruição total das instituições do antigo regime. | Preservação de parte da estrutura para garantir a ordem. |
| Exclusão de qualquer figura ligada ao ditador. | Negociação com “operadores” do regime (como Delcy) para uma saída. |
| Crença de que a democracia florescerá no vácuo. | Medo de que o vácuo seja preenchido por terrorismo ou crime organizado. |
4. O papel de Delcy Rodríguez e a “Ponte de Prata”
Ao citar a necessidade de não “demitir todos”, Trump sugere que figuras como Delcy Rodríguez podem ser necessárias para uma transição estável. Na diplomacia, isso é chamado de “Ponte de Prata”: oferecer ao inimigo uma saída honrosa (ou ao menos segura) para que ele não lute até a morte, destruindo o país no processo.
A comparação com o ISIS serve como um alerta: se a Venezuela entrar em colapso total, o fluxo migratório e a violência resultantes seriam infinitamente piores do que o status quo atual para os interesses nacionais dos EUA.
Conclusão
A resposta de Trump indica que, em um eventual novo mandato, sua estratégia para a Venezuela pode ser menos baseada em “pressão máxima até a ruptura” e mais focada em uma transição negociada que mantenha as estruturas básicas do Estado intactas.
Ele prefere lidar com os “generais e policiais” do regime atual, integrando-os ou neutralizando-os, do que enfrentar um exército de insurgentes desempregados em solo americano.
Contexto da Resposta de Donald Trump
Esta resposta de Donald Trump foi dada recentemente, em janeiro de 2026, no contexto de uma reviravolta dramática na política venezuelana após a saída (e captura) de Nicolás Maduro.
Aqui estão os detalhes sobre o momento e o destinatário da resposta:
Para quem?
Trump deu essa declaração a jornalistas e repórteres durante declarações oficiais e interações com a imprensa na Flórida e em Washington. O questionamento surgiu num momento em que a sua administração começou a reconhecer e a dialogar com Delcy Rodríguez (que assumiu a presidência interina como sucessora constitucional de Maduro) em vez de entregar o controlo total do país a María Corina Machado, a líder da oposição que muitos esperavam ser a escolha natural dos EUA.
Quando?
As declarações ocorreram por volta de 15 e 16 de janeiro de 2026.
O Contexto Específico
A resposta de Trump serviu para justificar uma mudança de estratégia pragmática (e controversa):
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A Captura de Maduro: Após uma operação que resultou na queda de Nicolás Maduro no início de janeiro, criou-se um vácuo de poder.
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O Dilema Machado vs. Rodríguez: Embora María Corina Machado seja a figura de maior legitimidade popular na oposição, Trump e os seus conselheiros (como o Secretário de Estado Marco Rubio) optaram por manter um canal de trabalho com Delcy Rodríguez para evitar o colapso das instituições venezuelanas.
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A Justificação do “Realismo”: Ao citar o Iraque, Trump explicou que não queria repetir o erro de 2003, quando os EUA desmantelaram todo o exército e polícia iraquianos (a “Desbaathificação”), o que gerou o caos e permitiu o surgimento do ISIS.
Para Trump, “demitir” todo o sistema chavista de uma vez criaria uma insurgência armada e instabilidade migratória. Por isso, ele defendeu a manutenção de partes da estrutura atual (representada por Rodríguez) para garantir a ordem e o controlo dos recursos naturais, como o petróleo, enquanto se desenha uma transição futura.
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