No contexto do Comércio Exterior (Comex), a originação não é apenas o ato de comprar. É um processo estratégico e técnico que envolve a identificação, qualificação e aquisição de mercadorias (sejam commodities ou produtos manufaturados) na fonte, garantindo que elas cheguem ao mercado internacional com competitividade, conformidade e qualidade.
Neste artigo, exploraremos as camadas técnicas da originação, os riscos envolvidos e as melhores práticas para profissionais da área.
Originação no Comércio Exterior: O Elo Estratégico da Cadeia de Suprimentos Global
1. O Conceito de Originação no Comex
Enquanto o termo “Sourcing” foca na busca por fornecedores, a Originação é um conceito mais amplo, muito comum no setor de Agribusiness e Hard Commodities. Ela abrange desde o fomento à produção e o financiamento do produtor/fabricante até a logística primária para levar o produto ao porto ou aeroporto.
Principais funções da Originação:
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Garantia de Suprimento: Assegurar que o volume necessário para exportação esteja disponível no cronograma correto.
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Gestão de Preço: Travar custos na origem para proteger as margens contra oscilações cambiais e de mercado.
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Controle de Qualidade In Loco: Verificar se o produto atende aos padrões fitossanitários ou técnicos do país de destino antes mesmo do embarque.
2. O Fluxo Técnico da Operação
A originação segue um rito técnico que conecta o “chão de fábrica” (ou o campo) às normas da ICC (International Chamber of Commerce).
A. Identificação e Due Diligence
Não se origina sem compliance. É necessário validar a capacidade produtiva, a saúde financeira do fornecedor e, crucialmente, o cumprimento de normas ESG (Ambientais, Sociais e de Governança). No Comex moderno, a origem do produto deve ser rastreável para evitar sanções.
B. Estruturação Contratual e Incoterms
A definição do Incoterm na originação determina onde termina a responsabilidade do originador e começa a do comprador internacional.
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Ex-Works (EXW) ou FCA: Comuns quando o originador assume a logística interna do país exportador.
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FOB (Free On Board): O padrão ouro para commodities, onde a originação se completa com a entrega da carga no costado do navio.
C. Arbitragem e Classificação
Especialmente em grãos, minérios e óleos, a originação exige a classificação técnica. Isso envolve laboratórios certificados que emitem laudos de umidade, impurezas e teor proteico, parâmetros que definem o preço final da transação internacional.
3. Gestão de Riscos na Originação
Originar mercadorias para o mercado global envolve riscos que podem inviabilizar a operação:
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Risco de Origem (Default): O fornecedor recebe o adiantamento ou o insumo (no caso de Barter), mas não entrega o produto por quebra de safra ou problemas operacionais.
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Risco Logístico: Gargalos em infraestrutura interna (estradas, ferrovias) que impedem o cumprimento do laycan (período de chegada no porto), gerando custos de demurrage.
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Risco Regulatório: Mudanças súbitas em taxas de exportação ou barreiras não-tarifárias no país de origem.
4. A Digitalização: Originação 4.0
A tecnologia transformou a originação. O uso de Blockchain permite hoje a rastreabilidade total da origem, garantindo que um produto exportado do Brasil, por exemplo, não venha de áreas de desmatamento ilegal — uma exigência crescente da União Europeia.
Além disso, o uso de imagens de satélite e sensores IoT (Internet das Coisas) permite que o originador monitore a produção em tempo real, antecipando problemas de volume antes mesmo da colheita ou finalização da manufatura.
5. Base Legal: Do Contrato Local ao Internacional
A originação muitas vezes envolve um “contrato de gaveta” ou uma CPR (no Brasil) que serve de lastro para o contrato de exportação internacional. A harmonização jurídica entre o que é comprado internamente e o que é vendido externamente é vital para evitar brechas tributárias, especialmente no que tange à manutenção de créditos de ICMS e desonerações de exportação.
Conclusão
A originação é o “coração” do Comex. Quem domina a origem, domina o preço e a qualidade. Em um mundo cada vez mais atento à sustentabilidade e à segurança alimentar/energética, o profissional de originação torna-se um gestor de ecossistemas produtivos.

