Comércio Exterior de Mamão: Operação Brasil / Paraguai

Sumário

Considerações Iniciais:

(1) Trading é uma empresa comercial de importação/exportação. Ela compra da indústria no mercado interno para revender no mercado externo (exportação) ou faz a operação inversa (importação), comprando de uma indústria no exterior e vendendo no mercado interno.

(2) Adotamos 2 (dois) cenários: como se a operação fosse realizada por uma Trading Brasileira e uma Trading Paraguaia.

Para analisar a carga tributária na venda de mamão entre Brasil e Paraguai, precisamos considerar que ambos fazem parte do Mercosul.

Isso garante uma vantagem fundamental: a alíquota de 0% para o Imposto de Importação (II) em ambos os lados, desde que o produto possua o Certificado de Origem (comprovando que o mamão foi colhido no Brasil).

Abaixo, detalhamos a estrutura tributária para as duas direções de comércio, analisando o impacto para importadoras e exportadoras em cada país.

1. Venda de Mamão: Brasil para o Paraguai

Neste cenário, o produtor rural brasileiro vende para uma exportadora no Brasil ou diretamente para uma importadora no Paraguai.

  • NCM do Mamão: 0807.20.00

  • Regra de Ouro: O Brasil não “exporta impostos”. Produtos destinados ao exterior são isentos ou imunes de tributos internos para garantir competitividade.

Estrutura Tributária (BR → PY)

 

Tributo Brasil (Exportadora) Paraguai (Importadora)
Imposto de Importação (II) N/A 0% (Acordo ACE-18 Mercosul)
IPI Imune 0% (Produto in natura)
PIS/COFINS Isento (na exportação) Ver IVA abaixo
ICMS Isento (Lei Kandir) N/A
IVA (Paraguai) N/A 5% (Alíquota para produtos agrícolas)
Taxas Aduaneiras Taxa Siscomex Valorização Aduaneira (Indert, etc. – aprox. 1-2%)

2. Venda de Mamão: Paraguai para o Brasil (Reimportação/Retorno)

Se uma importadora brasileira compra mamão de origem brasileira que está no Paraguai (ou se o fluxo se inverte), a tributação segue as regras de importação do Brasil.

Estrutura Tributária (PY → BR)

 

Tributo Paraguai (Exportadora) Brasil (Importadora)
Imposto de Exportação Geralmente 0% N/A
Imposto de Importação (II) N/A 0% (Com Certificado de Origem)
IPI-Vinculado N/A 0% (Mamão é alíquota zero na TIPI)
PIS/COFINS-Importação N/A Aprox. 9,25% (Recuperável se Lucro Real)
ICMS-Importação N/A 12% a 18% (Varia por estado e se há isenção de hortifrúti)
AFRMM (Marinha Mercante) N/A 8% (Se vier por via marítima – raro para PY)

3. Tabela Comparativa de Estruturas

Abaixo, comparamos o custo tributário total aproximado para a operação, considerando o mamão como produto primário.

Ponto de Análise Exportadora Brasileira (BR → PY) Importadora Paraguaia (BR → PY) Importadora Brasileira (PY → BR)
Carga Tributária Efetiva ~0% (na saída do Brasil) ~5% a 7% (custo de entrada no PY) ~10% a 25% (depende do ICMS e PIS/COFINS)
Principal Benefício Manutenção de créditos de insumos Isenção Mercosul (II = 0%) Isenção Mercosul (II = 0%)
Complexidade Baixa (Emissão de DU-E) Média (Despacho aduaneiro PY) Alta (Licenciamento MAPA/Anvisa)
Documento Chave Certificado de Origem Certificado de Origem Certificado de Origem

Observações Importantes:

  1. Produtor Rural (Brasil): Se o produtor for Pessoa Física, ele paga o Funrural (atualmente cerca de 1,5% sobre a receita bruta da venda interna para a exportadora). Se ele exportar diretamente, a exportação é isenta de Funrural.

  2. Controle Fitossanitário: Para o mamão, o custo tributário é baixo, mas o custo de conformidade é alto. É necessário o Certificado Fitossanitário de Origem (CFO) emitido por engenheiro agrônomo habilitado e fiscalização do MAPA (Brasil) e SENAVE (Paraguai).

  3. IVA no Paraguai: O Paraguai possui um dos sistemas tributários mais simples da região. Para produtos de cesta básica ou agrícolas, o IVA costuma ser de 5%, enquanto a alíquota geral é 10%.

Novo Regime de Origem do Mercosul

Este vídeo explica como as novas regras de origem do Mercosul facilitam a comprovação de que o produto é brasileiro ou paraguaio, garantindo a isenção do Imposto de Importação.

Vídeo. Disponível em https://youtu.be/lYIMRAKq4vw?si=chcTtjcsMp-oEk6s

Custos específicos com despachante aduaneiro e frete internacional para essa rota

Para detalhar esses custos, precisamos considerar que o transporte de mamão é uma operação de logística perecível. Isso exige agilidade na fronteira e, quase sempre, o uso de caminhões refrigerados (frigoríficos), o que eleva o valor do frete em comparação com carga seca.

A rota mais comum para essa operação é via Foz do Iguaçu (Brasil) / Ciudad del Este (Paraguai).

1. Estimativa de Custos de Frete Internacional

Os valores variam conforme a sazonalidade e a disponibilidade de retorno de carga, mas aqui estão as médias de mercado para um caminhão truck ou carreta:

Tipo de Veículo Capacidade Aprox. Rota (Média 500-800km) Custo Estimado (USD)
Caminhão Refrigerado 22 – 28 Toneladas Brasil → Paraguai USD 1.800 – USD 2.500
Caminhão Refrigerado 22 – 28 Toneladas Paraguai → Brasil USD 1.500 – USD 2.200
  • Nota: O frete no sentido Paraguai → Brasil costuma ser levemente mais barato devido à maior oferta de caminhões que descem vazios após descarregar produtos brasileiros no Paraguai.

2. Custos com Despachante e Taxas Aduaneiras

Diferente dos impostos (que vimos antes), estes são custos de serviço e taxas fixas por operação.

Lado Brasileiro (Exportadora ou Importadora)

  • Honorários do Despachante: Entre R$ 1.200,00 e R$ 2.500,00 por processo (DU-E ou DI).

  • Taxa Siscomex: Aproximadamente R$ 214,41 por Declaração de Importação (se for o caso).

  • Emissão de Certificado de Origem: Cerca de R$ 80,00 a R$ 150,00 (via Federação das Indústrias ou Associações Comerciais).

  • Inspeção MAPA (Ministério da Agricultura): Embora não haja uma “taxa de fiscalização” por carga na exportação, há o custo de deslocamento/logística se o fiscal precisar ir até o packing house, além do tempo de espera em porto seco.

Lado Paraguaio (Importadora ou Exportadora)

  • Honorários do Despachante (Despachante de Aduanas): Cerca de 1% a 2% sobre o valor FOB da carga (há tabelas mínimas conforme a legislação paraguaia).

  • Valorização Aduaneira: Taxas de processamento que somam cerca de USD 150 – USD 300 por caminhão.

  • Taxas SENAVE (Equivalente ao MAPA): Taxas para emissão e validação de documentos fitossanitários, variando conforme o volume.

3. Gastos com Porto Seco (Recintos Alfandegados)

Como o mamão é perecível, ele tem prioridade, mas ainda assim pode ficar parado para conferência.

  • Movimentação e Armazenagem: Média de 0,5% a 1% sobre o valor da mercadoria.

  • Estadia do Caminhão (Demurrage): Se a carga ficar retida mais de 24h por erro documental, o transportador cobra uma diária que gira entre R$ 1.000,00 e R$ 1.500,00.

4. Resumo da Estrutura de Custos Logísticos

Item Responsável (Geralmente) Custo Médio por Operação
Frete Internacional Quem paga o frete (Incoterm) USD 2.000,00
Seguro Internacional Exportador/Importador 0,3% a 0,7% do valor da carga
Despachante (BR) Empresa Brasileira R$ 1.800,00
Despachante (PY) Empresa Paraguaia USD 350,00
Custo Fitossanitário Produtor/Exportador R$ 300,00

Dica de Ouro: Para o mamão, o ponto crítico não é o imposto, mas a logística do frio. Se o caminhão quebrar ou a aduana demorar 3 dias a mais por erro de papelada, a perda da carga pode ser total. É essencial usar o Incoterm CPT (Carriage Paid To) ou DAP (Delivered At Place) para definir bem onde termina o risco de cada parte.

Checklist de documentos necessários para que a carga não fique retida na ponte entre os dois países

Para que uma carga de mamão cruze a fronteira entre Brasil e Paraguai sem interrupções, a documentação deve estar perfeitamente alinhada entre as exigências fiscais (Receita/Aduana) e as sanitárias (MAPA/SENAVE). Qualquer erro aqui resulta em multas ou, pior, na perda da carga perecível.

Aqui está o checklist essencial dividido por categorias:

1. Documentos Comerciais e Fiscais

Estes documentos dão lastro financeiro e legal à operação.

  • [ ] Fatura Comercial (Commercial Invoice): Em português/espanhol, contendo Incoterms, detalhes do pagamento e descrição precisa do mamão (tipo, peso, quantidade).

  • [ ] Romaneio de Carga (Packing List): Detalhando como o mamão está embalado (ex: caixas de papelão, pallets, peso líquido e bruto).

  • [ ] Nota Fiscal de Exportação (Brasil): Com o CFOP específico de exportação (ex: 7.101 ou 7.501).

2. Documentos de Origem (O “Pulo do Gato” para Isenção)

Sem isso, você paga Imposto de Importação desnecessariamente.

  • [ ] Certificado de Origem Mercosul: Emitido por federações credenciadas. É o que garante a alíquota zero de II (Imposto de Importação) no destino.

  • [ ] Declaração do Produtor: Documento que atesta que o mamão foi colhido em solo brasileiro.

3. Documentos Sanitários (Obrigatórios para Perecíveis)

Esta é a parte mais rígida da fiscalização.

  • [ ] Certificado Fitossanitário de Origem (CFO): Emitido por um engenheiro agrônomo habilitado na origem.

  • [ ] Certificado Fitossanitário Internacional (CFI): Emitido pelo MAPA (no Brasil) ou SENAVE (no Paraguai). Este documento atesta que a carga está livre de pragas (como a mosca-das-frutas).

  • [ ] Permissão de Importação (AFIDI): No caso do Paraguai, a importadora deve obter a Acreditación Fitosanitaria de Importación antes da carga sair do Brasil.

4. Documentos de Transporte e Aduana

  • [ ] CRT (Conhecimento de Rodoviário de Transporte): O documento principal do transportador internacional.

  • [ ] MIC/DTA (Manifesto Internacional de Carga): Documento que permite que a carga transite entre as alfândegas.

  • [ ] DU-E (Declaração Única de Exportação): Registrada no Siscomex (Brasil).

  • [ ] Despacho de Importação: Registrado no sistema SOFIA (Paraguai).

Resumo de Responsabilidades por Perfil

Documento Quem Providencia (BR → PY) Importância
Certificado Fitossanitário Exportadora Brasileira Crítica (Evita bloqueio sanitário)
Certificado de Origem Exportadora Brasileira Financeira (Zera o imposto)
Permissão AFIDI Importadora Paraguaia Legal (Autoriza a entrada no PY)
CRT / MIC-DTA Transportadora Operacional (Cruza a fronteira)

Dica Prática para o Sucesso da Operação:

Como o mamão é altamente perecível, recomendo o uso do “Despacho Antecipado”. Isso permite que o despachante inicie o trâmite documental antes mesmo do caminhão chegar à fronteira, reduzindo o tempo de exposição da carga ao calor do pátio aduaneiro.

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