Como melhorar o PMP? Fazer o risco sacado é uma boa idéia?

Sumário

Como melhorar o PMP? Fornecedores não alongam o prazo. Fazer o risco sacado é uma boa idéia?

Melhorar o PMP (Prazo Médio de Pagamento) quando os fornecedores não aceitam esticar o prazo é um desafio clássico de gestão financeira.

O risco sacado é, de fato, uma das ferramentas mais usadas para resolver esse impasse, mas precisa ser bem gerido para não se tornar uma armadilha.

Abaixo, explicamos como melhorar o PMP e detalhamos o risco sacado do simples ao técnico, incluindo a polêmica das Americanas.

1. Como melhorar o PMP sem alongar prazos diretamente?

Se o fornecedor não aceita receber em 60 dias em vez de 30, você tem três caminhos principais:

  • Risco Sacado: É a solução “ganha-ganha”. Você oferece ao fornecedor a opção de antecipar o dinheiro com um banco, usando a sua taxa de juros (que costuma ser menor que a dele). Em troca, você ganha o fôlego de pagar ao banco apenas no prazo estendido.

  • Centralização de Compras: Às vezes, o prazo é curto porque o volume de compra é pequeno ou pulverizado. Agrupar compras em pedidos maiores costuma dar mais poder de barganha.

  • Substituição Estratégica: Buscar novos parceiros que já possuam modelos de negócio adaptados a prazos longos ou que operem com plataformas de antecipação.

2. O que é Risco Sacado?

 

Para um Leigo (Explicação Simples)

Imagine que você comprou um fogão de uma loja para pagar daqui a 30 dias. O dono da loja precisa de dinheiro hoje para pagar os funcionários.

O risco sacado é como se um banco entrasse na jogada e dissesse ao dono da loja: “Eu te pago o valor do fogão hoje, cobrando um jurozinho pequeno, e o cliente (você) me paga daqui a 60 dias”.

  • O Fornecedor fica feliz porque recebe à vista.

  • Você fica feliz porque ganhou mais 30 dias para pagar.

  • O Banco fica feliz porque cobrou juros por esse serviço.

Aprofundamento Técnico

O risco sacado (ou Supply Chain Finance) é uma operação de antecipação de recebíveis onde a âncora (a empresa compradora) viabiliza uma linha de crédito para seus fornecedores.

  1. Homologação: A empresa compradora confirma para o banco que a nota fiscal é válida e que ela honrará o pagamento.

  2. Cessão de Crédito: O fornecedor cede o direito de receber aquele título ao banco em troca do valor presente líquido (com desconto da taxa de juros).

  3. Liquidação: No vencimento original (ou prorrogado), a empresa compradora paga diretamente ao banco.

A grande vantagem técnica é que a taxa de desconto é baseada no risco de crédito da empresa compradora (geralmente uma empresa grande com juros menores) e não no risco do pequeno fornecedor.

3. O Risco Sacado e o caso Americanas

Sim, o RISCO SACADO foi o centro do escândalo contábil das Americanas.

O problema não foi a operação em si (que é legal e comum), mas como ela foi registrada.

  • O que deveria acontecer: Quando a empresa alonga o prazo com o banco e paga juros por isso, essa dívida deixa de ser “Fornecedores” (operacional) e passa a ser “Empréstimos e Financiamentos” (financeira).

  • O que a Americanas fez: Ela manteve esses bilhões de reais na conta de “Fornecedores” e não registrou os juros pagos como despesa financeira.

  • O resultado: O balanço mostrava uma empresa “saudável” e pouco endividada, quando na verdade ela devia bilhões aos bancos com juros correndo. Isso camuflou o endividamento real por quase uma década.

Conclusão: É uma boa ideia?

 

Sim, desde que haja transparência. O risco sacado melhora seu fluxo de caixa sem asfixiar o fornecedor. O segredo é garantir que a contabilidade classifique a operação corretamente para não distorcer o seu nível de endividamento.

Calculando o impacto que uma operação de risco sacado teria no seu Ciclo Financeiro atual

Para calcular o impacto no seu Ciclo Financeiro, precisamos entender como o Risco Sacado mexe no equilíbrio entre o tempo que você leva para vender e o tempo que você tem para pagar.

O Ciclo Financeiro é definido pela fórmula:

Ciclo Financeiro = Prazo Médio de Estoque (PME) + Prazo Médio de Recebimento (PMR) – Prazo Médio de Pagamento (PMP)

Exemplo Prático de Impacto

Imagine o seguinte cenário atual da sua empresa:

  • PME (Estoque): 40 dias

  • PMR (Vendas): 45 dias

  • PMP (Fornecedores): 30 dias

Nesse caso, seu Ciclo Financeiro é de 55 dias (40 + 45 – 30).

Isso significa que você precisa financiar do próprio bolso (ou de capital de giro caro) quase dois meses de operação.

Com o Risco Sacado:

Se você implementar o risco sacado e conseguir que o banco estenda o seu pagamento para 90 dias (enquanto o fornecedor continua antecipando o dinheiro dele se quiser):

  • Novo PMP: 90 dias

  • Novo Ciclo Financeiro: 40 + 45 – 90 = -5 dias

O que isso significa?

Você passa a ter um Ciclo Financeiro Negativo.

Você recebe dos seus clientes antes mesmo de precisar pagar o banco. O seu próprio negócio passa a gerar o caixa necessário para crescer, eliminando a dependência de empréstimos bancários tradicionais para capital de giro.

Tabela de Sensibilidade (Impacto no Fluxo de Caixa)

Se o seu faturamento mensal de compras for, por exemplo, de R$ 1.000.000, veja o que acontece com o seu caixa livre ao aumentar o PMP:

Prazo de Pagamento (PMP) Saldo de Fornecedores no Balanço Impacto no Caixa Livre
30 dias (Atual) R$ 1.000.000
60 dias (Risco Sacado) R$ 2.000.000 + R$ 1.000.000
90 dias (Risco Sacado) R$ 3.000.000 + R$ 2.000.000

Nota: Esse “caixa livre” que aparece no curto prazo é uma injeção de liquidez única. Ele não é lucro, mas sim capital de giro que antes estava “preso” e agora está disponível na sua conta.

O que você precisa considerar agora (O “Pulo do Gato”):

  1. Custo da Taxa: O banco cobrará uma taxa (ex: 1.5% a 2.5% ao mês). Quem paga essa taxa? Se for você, o PMP aumenta, mas sua margem diminui. Se for o fornecedor (em troca de receber à vista), sua margem fica intacta.

  2. Limite de Crédito: O risco sacado consome o seu limite de crédito junto ao banco, pois, juridicamente, o banco está emprestando dinheiro para você pagar o fornecedor.

  3. Contabilidade: Lembre-se do erro da Americanas. Registre o valor estendido como Passivo Financeiro se houver juros envolvidos na prorrogação.

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